QuE o patRiarCado CaiA

REFLEXÕES E DEVANEIOS SOBRE O SER FEMININO

Uma caixa de sapatos, um Buda, um livro velho sem capa e mais algumas outras pequenas bugigangas que cabiam naquela pequena caixa, nessa altura, eu contava com a idade de quatro anos, mais ou menos, eu ainda me lembro de outras poucas cenas da minha infância, da minha irmã pequena, do meu irmão recém-nascido, dos meus pais na maternidade etc. Porém, por algum motivo, a lembrança que ainda tenho viva em mim é a cena do livro na caixa de sapatos, mais viva ainda é a recordação da fala de minha mãe dizendo: Marcela, você deve estudar bastante, estudar muito pra não ser como eu, você deve estudar pra ter um emprego e ser independente. Pra não depender de homem nenhum!

Não por coincidência, esse livro foi, por mim, guardado durante anos, já velho e sem capa, acompanhou quase toda a minha história, o guardei durante quase trinta anos, mas, nos últimos anos da faculdade, eu o perdi, simplesmente, o livro desapareceu! Ao escrever esse pequeno texto, percebo agora que ele serviu como um pequeno contrato firmado entre minha mãe e eu, como se ele fosse o nosso pequeno acordo de que eu realizaria aquilo que ela desejava, me tornar uma mulher, mas, uma mulher diferente daquela que era ela. Claro que isso não se deu de forma consciente, na verdade, acabo de elaborar esse pequeno fragmento de pensamento, o fato curioso é que, ao ter clareza dos anseios da minha mãe, eu consigo agora ter clareza dos meus próprios desejos. Para minha mãe, a sua esperança foi possibilitar que suas filhas (minha irmã e eu) se tornassem mulheres fortes, independentes e, sobretudo, felizes. Ouso dizer e pensar que ela talvez tenha conseguido!

O blog surge, então, diante das reflexões provocadas pelas situações de opressão, violência, silêncio e preconceito, situações vivenciadas, primeiro, pela minha mãe e que chegaram até a mim por suas narrativas, depois, pelas minhas próprias experiências e, agora, todas essas experiências elaboradas ou pensadas para serem compartilhada com vocês. Tal como minha mãe, diversas mulheres com ensino fundamental incompleto, limitações sociais, econômicas e culturais – e, ainda, imersas numa cultura extremamente machista – possibilitaram novos caminhos para suas filhas e, ao mesmo tempo, para si mesmas. O que havia, afinal, de tão especial naquela cena da caixa de sapatos? Os passos a serem dados, os caminhos a serem trilhados, havia ali um nada cheio de possibilidades para vir a ser, havia a possibilidade do preenchimento do vazio através de alternativas criativas, havia ali muita criatividade e ação!  

Ser Mulher implica, antes de tudo, ser atravessada pelo o universo feminino que ainda hoje, infelizmente, é marcado pela opressão, pelo machismo estrutural, muitas vezes, um machismo velado e latente, outras, escancarado e violento. Mas, Ser Mulher também tem como marca a superação, pelo desvio à regra, pela criatividade, pela saída encontrada no caminho sem saída e aparentemente sem volta. Ser Mulher é antes de tudo Ser um Ser de Criação, um SER QUE CRIA+AÇÃO!

Antes de tudo, ser mulher é ser um Ser de Criação.

A fala de minha mãe dirigida a mim, uma criança de quatro anos, surge como uma espécie de guia, um caminho de esperança para o destino de uma criança do sexo feminino, surge como conselho e como desespero. Talvez, o que ela estivesse se perguntando ao ver aquela caixa fosse: como sair dessa condição de mulher sem estudos, sem profissão, dependente economicamente do marido e com três filhos e sem emprego? Ao elaborar a resposta, ela visualiza o destino das filhas e, ao elaborar, percebe que o caminho para se libertar dessa condição de mulher oprimida é por meio do conhecimento, dos estudos, assim, cria uma alternativa para a sua vida e, ao mesmo tempo, para a vida de suas filhas.  

O que Quer uma Mulher? É claro que essa questão não tem uma única resposta, porém, cabe a cada uma de nós, mulheres, tentar encontrar uma alternativa para a existência feminina que desvie da regra de uma cultura machista, da opressão que ainda infelizmente existe, do machismo que se mostra muitas vezes velado. Cabe a cada uma de nós tentar encontrar uma resposta que seja plural e, ao mesmo tempo, singular. Plural porque as mulheres carregam ainda sobre seus ombros séculos e séculos de opressão, de intolerância, de preconceito, de inexistência, então, encontrar uma resposta no plural consiste em possibilitar alternativas para outras mulheres que ainda hoje vivem em situações de machismo extremo, de opressão extrema, de valores preconceituosos extremos. Singular seria um caminho de resposta para si mesma, para sua realização pessoal que irradia para todas as outras dimensões do ser, do Ser Mulher. Finalizo esse texto dizendo que o quer uma Mulher é existir em todas as dimensões possíveis do seu ser, ela quer estar e Ser. E, sobretudo, Ser respeitada!

Seja bem-vind@ ao meu blog, sinta-se à vontade e tome um café comigo  

Das brigas à consciência de si!

Sou nascida e criada em São Paulo, mas, em 2018, fui para o Espírito Santo fazer mestrado, por quase dois anos morei lá, morei em Cariacica, perto de Vitória, município pouco desenvolvido e com diversos problemas sociais. Como tudo na vida, eu aprendi muita coisa interessante, como, por exemplo, pude aprender que uma cidade que …

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Todas as Mulheres gostam de Rosas!

Um romance, um compromisso, uma aliança e um buquê de rosas, palavras que nos levam a pensar na relação do sujeito com o outro, nos levam a pensar em um laço!Não nos parece ser possível estabelecer ou viver um romance sozinho, assim como um compromisso ou uma aliança. Porém, o buquê de rosas nos leva …

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Não ao Empoderamento

Há algum tempo, tenho escutado com maior frequência a palavra empoderar como sinônimo de força, independência e, até mesmo, de existência. Tenho notado ainda certa generalização sobre esse termo, diante desse fenômeno, eu me peguei pensando os motivos desse meu incômodo diante da palavra EMPODERAMENTO. Percebi que o meu incomodo aumenta mais quando a palavra …

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QuE o patRiarCado CaiA é um blog criado por Marcela Santos, motivada pelo machismo estrutural que ora se apresenta velado, ora se apresenta escancarado.

O principal objetivo do blog consiste em uma tentativa de elaborar tais experiências de violência, preconceito e desrespeito ao Ser feminino ao Ser Mulher. Além disso, o blog consiste também em uma espaço para trocas de experiências e aprendizados.

Se o patriarcado e o machismo ainda existem, precisamos falar sobre eles, de modo urgente, precisamos refletir e dialogar com as diversas autoras que trabalharam e se dedicaram sobre essas questões.

Marcela Santos é professora de filosofia, especialista em teoria psicanalítica freudiana e mestra em filosofia. Interessa-se, sobretudo, por temas diversos que contenham boa dose de humor. Acredita na filosofia como práxis.

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