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REFLEXÕES E DEVANEIOS SOBRE O SER FEMININO

Foto por Rahul Pandit em Pexels.com

Há algum tempo, tenho escutado com maior frequência a palavra empoderar como sinônimo de força, independência e, até mesmo, de existência. Tenho notado ainda certa generalização sobre esse termo, diante desse fenômeno, eu me peguei pensando os motivos desse meu incômodo diante da palavra EMPODERAMENTO. Percebi que o meu incomodo aumenta mais quando a palavra sai da boca de mulheres para se referirem a si mesmas ou a outras mulheres, como mulheres EM- PO- DE-RA-DAS! Claro que esse desconforto não tem a ver com o gênero e, muito menos, com a palavra ou com o verbo em si – empoderar. Porém, tem a ver com certa ideia que fica subentendida em determinadas situações, certa ideia que posso ousar dizer que tem a ver com certo esvaziamento de significado ou de esvaziamento ideológico que a palavra vem sofrendo nos últimos anos.     

São diversas as situações que as pessoas se utilizam da palavra empoderar, mas, muitas vezes, ela quer indicar certa autonomia, o sujeito empoderado geralmente é entendido como aquele que tem poder sobre suas emoções, suas escolhas e, sobretudo, seu destino. Mas, sabemos que a sociedade e a cultura contemporânea são marcadas pela massificação da subjetividade, ideia comum e muito explorada por diversos pensadores da Escola de Frankfurt, na Alemanha, como por exemplo, Adorno e Horkheimer. 

No século XXI, a subjetividade se dilui nas propagandas, o desejo se desvia do destino dos indivíduos, o sentimento de tristeza e infelicidade impera sobre a maior parte das vidas humanas, não é por acaso que a depressão já é conhecida como o mau do século,  mau do nosso século!

Se os afetos são facilmente manipulados, como pensar no empoderamento sem pensarmos sobre o ser político e social que somos? Se definir como um ser empoderado ou uma mulher empoderada exige um trabalho cansativo sobre o pensar sobre si mesmo a partir de uma sociedade que tem fortes instrumentos para manter e produzir cada vez mais riquezas. Assim, eu pergunto. Uma mulher empoderada existe? Um ser empoderado existe? Eu digo, não necessariamente, não!

Se os afetos são facilmente manipulados, então, como pensar no empoderamento sem antes pensarmos sobre o ser político e social que nós somos?

Marcela Santos

Mas, vocês devem estar se perguntando, afinal, o que isso tem a ver com a utilização do verbo empoderar?

Muitos devem estar se perguntando agora sobre as mulheres empoderadas que foram citadas no início da conversa, pois bem, dizer que se é uma mulher empoderada consiste mais em um discurso midiático a serviço do marketing-capitalista-existencial. A ideia latente que traz as seguintes expressões “somos mulheres empoderadas” ou “somos ou devemos ser todas mulheres empoderadas” é certa possibilidade de negação da exceção, ou seja, há um discurso que enaltece ou engrandece a existência a partir do poder e aquele sujeito que não contém o empoderado pode ser percebido como aquele que destoa do novo paradigma da existência feminina, mas, como podemos associar existência a poder?

O fato mais importante que eu penso é entender que existir não deve ser confundido com poder, muito menos, com luta de poderes. Não luto para existir, eu simplesmente existo! Existir é apenas existir, não requer força, porém, não nego com isso as lutas das mulheres ao longo dos séculos para acessar as diversas áreas da sociedade, as quais somos favorecidas atualmente, mas, insisto que não devemos adotar discursos ou terminologias impostas por sistemas econômicos dominantes a favor e a trabalho de um marketing existencial que serve muito mais ao lucro do que para a auto-reflexão e a liberdade de existir.

Eu me nego a impor a minha existência a você, eu simplesmente existo, não me vou empoderar porque ninguém tirou meu poder e, por isso, ninguém me autorizará a colocar meu poder de volta. Existir é ser e ser é só ser…

Pois bem, se a subjetividade flutua entre uma propaganda e outra pelas mídias digitais e televisivas cujos afetos são moldados e manipulados, se a massificação e a tristeza são traços que estão presentes no sujeito contemporâneo, se o sujeito perde ao longo da sua vida a possibilidade de ter contato consigo mesmo, logo, podemos dizer que nós, indivíduos do século XXI, perdemos a cada dia a possibilidade de ser um ser-existente, portanto, de se tornar um sujeito empoderado, podemos encontrar facilmente diversos  exemplos que denunciam a impossibilidade do empoderamento subjetivo, mas, isso não significa que seja algo inalcançável, porém, não é algo tão comum e tão fácil de ser conquistado como sugere certa tendência midiática, eu entendo que a utilização do verbo empoderar está mais em sintonia com a massificação do que com o processo verdadeiro de reflexão e libertação dos valores capitais pelos indivíduos, além disso, também está a trabalho do marketing e das propagandas que são engrenagem fundamentais para o sistema econômico capitalista continue a operar, assim sendo, eu  posso entender que empoderamento não existe porque somos facilmente manipulados, quem aqui nunca ficou comovido ou comovida com notícias de redes sociais?

Deixo aqui de presente para vocês a música de Arnaldo Antunes interpretada por Marina Lima que leva como título Grávida nos remetendo a gestação de ideias, pessoas, sentimentos e das infinitas possibilidades de existir!

Avaliação: 1 de 5.

4 comentários sobre “Não ao Empoderamento

  1. Gabi disse:

    Gostei muito do seu texto, parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá Gabi, tudo bem? Puxa, eu fico muito feliz que tenha gostado. Brigada pelo feedback!

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      1. João disse:

        Gostei muito!!!

        Curtido por 1 pessoa

      2. brigada pelo Feedback João…. fico feliz e contente q tenha gostado…. brigada

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