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REFLEXÕES E DEVANEIOS SOBRE O SER FEMININO

Um romance, um compromisso, uma aliança e um buquê de rosas, palavras que nos levam a pensar na relação do sujeito com o outro, nos levam a pensar em um laço!Não nos parece ser possível estabelecer ou viver um romance sozinho, assim como um compromisso ou uma aliança. Porém, o buquê de rosas nos leva a outra dimensão, ele nos leva ao caminho do simbólico, na nossa cultura, por exemplo, ele se apresenta como a maior  representação de amor e afeto de uma pessoa por alguém.  

Entre os diversos acontecimentos da vida de uma pessoa, os relacionamentos amorosos são, provavelmente, os que mais marcam nossa existência. De certa forma, somos todos atravessados pelas relações que estabelecemos sejam elas ainda existentes ou já perdidas. Os vínculos que estabelecemos tanto nos transformam como também nos constitui e isso, para mim, é incrível!

Mas, não por acaso, os relacionamentos amorosos e os grandes eventos de passagens são marcados pelas rosas ou flores, nos casamentos, as rosas estão presentes nos buquês, assim como nos funerais, elas estão ali também presentes nas coroas.

Os meus dois últimos relacionamentos me fizeram pensar muito sobre o significado e simbolismo implícito e explícito dos buquês de rosas, o explícito consiste na demonstração de carinho, afeto, na demonstração da gratidão pelo laço amoroso. O implícito é o que me causa mais ruminações mentais, o que me levou a pensar na demonstração de afeto e carinho por meio dos buquês de rosas em uma sociedade extremamente machista como a nossa.

Sabemos bem que os enamorados se presenteiam e não há nisso novidade alguma. Mas, o que há de fato de tão contraditório nesses buquês de rosas que, a partir da minha experiência, me fizeram pensar sobre como eles?

Em uma cultura machista é comum, e isso é quase uma regra, o silenciamento explícito e implícito das mulheres, silêncio que se ramifica e penetra em todas as dimensões da vida, mas, não é um silenciamento da fala apenas é, ao mesmo tempo, um silenciamento do querer, do gostar e do desejar do outro.

O problema, então, não está no buquê de rosas, sem dúvida, não está! Mas, estaria em certo discurso que equipara os desejos femininos, os colocando todos em um só lugar!

Marcela Santos

Imagine a cena: com quase um mês de antecedência a mulher se pega preocupada com a data de aniversário do companheiro ou dia dos namorados. Ela, então, antecipa seus cuidados e sua atenção sobre o outro, o que o outro precisa, ela se pergunta, o que seu companheiro ou namorado gosta? Qual a cor? O tecido? Etc. Ao final desse quase um mês de escuta, um mês que ela se põe a prestar atenção sobre o que o outro necessita, ela finalmente compra o bendito presente. Enquanto, o outro, o homem, fechado em si como macho, antecipa em dez minutos o seu relógio na data comemorativa e vai até a floricultura e compra um grande e maravilhoso buquê de rosas vermelhas porque, além de todas as mulheres gostarem de rosas, todas elas também preferem a cor vermelha! Muitas das vezes, ele até compra uma caixa de chocolate, quanta atenção, quanto amor! Que presente surpreendentemente surpreendente! Nesse gesto sem cuidado, mora ali, ali mesmo, o machismo, o machismo aqui surge como a falta de atenção e cuidado e, muitas vezes, vem encapado de pseudo-cuidado e pseudo-atenção.

O problema, então, não está no buquê de rosas, sem dúvida, não está! Mas, estaria em certo discurso que equipara os desejos femininos, os colocando todos em um só lugar! seus gostos e suas demandas. Equiparar o universo feminino, a meu ver, também tem caráter de violência. Assim, como todas as mulheres que gostam de rosas porque não foram questionadas sobre isso, não seria coincidência todos os mortos também receberem flores em seus velórios, nos seus cerimoniais fúnebres. Enfim, todos os cadáveres também parecem gostar de rosas, de flores, aquele que vem em forma de cuidado e atenção, aquele machismo velado, aquele machismo que nada ouve ou escuta. E, por fim, todos dizem: Como é ROMANTICO O TEU NAMORADO! Como é ROMANTICO O TEU MARIDO!

Enquanto ao homem cabe ser escutado, coube a mulher ser silenciada, esse silenciamento não vem apenas na forma de expressão verbal, mas, também e, talvez, principalmente, pela forma de negligenciar a existência feminina que também tem a ver com o gostar e o não gostar de algo.

Deixo para vocês um vídeo de Antônio Abujamra declamando o poema Mude, mas comece de Edson Marques, para pensarmos nas possibilidades de ver o velho hábito com novos olhares e, com isso, propormos a algumas mudanças. Aproveitem!

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