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REFLEXÕES E DEVANEIOS SOBRE O SER FEMININO

Sou nascida e criada em São Paulo, mas, em 2018, fui para o Espírito Santo fazer mestrado, por quase dois anos morei lá, morei em Cariacica, perto de Vitória, município pouco desenvolvido e com diversos problemas sociais. Como tudo na vida, eu aprendi muita coisa interessante, como, por exemplo, pude aprender que uma cidade que você eventualmente visita como turista, não é a mesma cidade quando você decide ir morar, quando somos moradores de uma cidade, podemos ver de perto os seus defeitos, suas falhas, suas insuficiências, assim como, os membros de uma família, mas, também podemos perceber suas riquezas. Sempre tentei conciliar estudo com trabalho, isso não é uma tarefa fácil, mas, quando cheguei ao Espírito Santo, decidi me dedicar integralmente aos estudos, passar esse tempo de estudos para finalizar o mestrado e, posteriormente, retornar ao meu emprego, aqui, em São Paulo.  Então, comecei a ocupar o meu tempo obviamente com os estudos, porém, também passei a querer conhecer mais a cidade, as praias, as pessoas, os lugares, enfim, tudo! Fiz algumas amizades que são nutridas até hoje, amigos que me apoiaram e me ajudaram, nesse percurso, nessa cidade, até então, desconhecida por mim. Conheci inúmeras praias, inclusive no inverno, já que a temperatura é muito agradável durante o ano inteiro. Eu também aprendi a cozinhar um pouco mais, moquecas, peixes e outras infinidades de comidinhas deliciosas. Quem nunca foi a Vitória deveria ir, pelo menos, pra visitar as praias e campus universitário da UFES.  Com o passar do tempo, algumas questões sociais e de gênero foram se apresentando e ocupando, cada vez mais, espaço nas minhas reflexões cotidianas, miséria, pobreza, violência, intolerância eram algumas das coisas que mais me chamavam a atenção. Hoje, entendo que quem permanece muito tempo no mesmo lugar, vicia o seu olhar diante de certos eventos diários, em São Paulo, também encontramos pobrezas, misérias, violências e intolerâncias, mas, lá, lá era diferente, havia todos esses eventos que se tornavam maiores porque lá eu estava sozinha, sem meus familiares, sem meu porto seguro.  

Foto por KEHN HERMANO em Pexels.com

De Cariacica para Vitória, eu ia de ônibus, nesse trajeto, presenciei por quatro vezes brigas em um intervalo curto de tempo, claro que São Paulo também tem brigas nos transportes públicos, mas, o que me chamou a atenção foi que, logo nos seis primeiros meses, morando lá, as brigas aconteceram com um intervalo muito curto entre si. Em São Paulo, por sorte, nunca presenciei brigas em ônibus ou terminais, embora haja muito mais circulação de pessoas nos transportes de São Paulo, essas brigas me fez pensar sobre a intolerância das pessoas entre elas, isso está longe de ser uma generalização, mas, não posso deixar de perceber que há, ou pelo menos eu senti dessa forma, que há certa áurea de violência nas relações ali.  Depois tiveram outros eventos que me chamaram a atenção, logo, quando me mudei para lá, soube de um ato pró-bolsonaro, fiquei sabendo só depois que o Espírito Santo foi uma das grandes zonas eleitoreiras pró-bolsonaro. Coincidentemente ou não, na mesma época, descobri que o estado lidera entre os estados brasileiros o ranking de violência domestica no país. Todas essas questões foram saltando aos olhos e sendo apresentadas de forma mais escancarada para mim, aos poucos, esses eventos foram ocupando minhas reflexões. Quase no final de 2018, ocorreu na UFES um dos maiores eventos brasileiros de filosofia – a ANPOF (Associação Nacional de Pós-graduação em Filosofia). Nesse evento,  as apresentações foram feitas apenas por professores homens, todos professores eram homens, sendo que há ali na universidade mulheres maravilhosas que trabalham com filosofia, mas, NENHUMA MULHER Professora Filosofa foi convidada para partilhar do palco.

Todas essas situações foram me mostrando a gravidade dos problemas sociais e de gênero que estamos imersos / submersos. Quando passamos a ampliar nossos horizontes de troca, de conhecimento, de experiências etc., também ampliamos o olhar de nós mesmo para nós mesmo e diante daquilo que imaginávamos saber.

Antes de morar no Espírito Santo, eu acreditava saber sobre certas questões sociais e de gênero, sabia, porém, era pouco. Essas experiências deixaram marcas, fui percebendo o quão importante é saber, mas, também olhar, o olhar, o perceber é essencial para que possamos ampliar nossa consciência. As marcas das experiências vividas ficam como sombras em nós mesmos e vão sendo transmitidas com o tempo,  sem dúvida, a experiência acadêmica foi boa, tive contato com professoras e professores da UFES, oportunidade ímpar que me enriqueceu, mas, as reflexões suscitadas pelo cotidiano estranho, esses eventos diários foram permitindo novas percepções sobre as realidades e, consequentemente, criando novas formas de conhecer e de ter consciência sobre eu mesma e o mundo.

Um romance, um compromisso, uma aliança e um buquê de rosas, palavras que nos levam a pensar na relação do sujeito com o outro, nos levam a pensar em um laço!Não nos parece ser possível estabelecer ou viver um romance sozinho, assim como um compromisso ou uma aliança. Porém, o buquê de rosas nos leva a outra dimensão, ele nos leva ao caminho do simbólico, na nossa cultura, por exemplo, ele se apresenta como a maior  representação de amor e afeto de uma pessoa por alguém.  

Entre os diversos acontecimentos da vida de uma pessoa, os relacionamentos amorosos são, provavelmente, os que mais marcam nossa existência. De certa forma, somos todos atravessados pelas relações que estabelecemos sejam elas ainda existentes ou já perdidas. Os vínculos que estabelecemos tanto nos transformam como também nos constitui e isso, para mim, é incrível!

Mas, não por acaso, os relacionamentos amorosos e os grandes eventos de passagens são marcados pelas rosas ou flores, nos casamentos, as rosas estão presentes nos buquês, assim como nos funerais, elas estão ali também presentes nas coroas.

Os meus dois últimos relacionamentos me fizeram pensar muito sobre o significado e simbolismo implícito e explícito dos buquês de rosas, o explícito consiste na demonstração de carinho, afeto, na demonstração da gratidão pelo laço amoroso. O implícito é o que me causa mais ruminações mentais, o que me levou a pensar na demonstração de afeto e carinho por meio dos buquês de rosas em uma sociedade extremamente machista como a nossa.

Sabemos bem que os enamorados se presenteiam e não há nisso novidade alguma. Mas, o que há de fato de tão contraditório nesses buquês de rosas que, a partir da minha experiência, me fizeram pensar sobre como eles?

Em uma cultura machista é comum, e isso é quase uma regra, o silenciamento explícito e implícito das mulheres, silêncio que se ramifica e penetra em todas as dimensões da vida, mas, não é um silenciamento da fala apenas é, ao mesmo tempo, um silenciamento do querer, do gostar e do desejar do outro.

O problema, então, não está no buquê de rosas, sem dúvida, não está! Mas, estaria em certo discurso que equipara os desejos femininos, os colocando todos em um só lugar!

Marcela Santos

Imagine a cena: com quase um mês de antecedência a mulher se pega preocupada com a data de aniversário do companheiro ou dia dos namorados. Ela, então, antecipa seus cuidados e sua atenção sobre o outro, o que o outro precisa, ela se pergunta, o que seu companheiro ou namorado gosta? Qual a cor? O tecido? Etc. Ao final desse quase um mês de escuta, um mês que ela se põe a prestar atenção sobre o que o outro necessita, ela finalmente compra o bendito presente. Enquanto, o outro, o homem, fechado em si como macho, antecipa em dez minutos o seu relógio na data comemorativa e vai até a floricultura e compra um grande e maravilhoso buquê de rosas vermelhas porque, além de todas as mulheres gostarem de rosas, todas elas também preferem a cor vermelha! Muitas das vezes, ele até compra uma caixa de chocolate, quanta atenção, quanto amor! Que presente surpreendentemente surpreendente! Nesse gesto sem cuidado, mora ali, ali mesmo, o machismo, o machismo aqui surge como a falta de atenção e cuidado e, muitas vezes, vem encapado de pseudo-cuidado e pseudo-atenção.

O problema, então, não está no buquê de rosas, sem dúvida, não está! Mas, estaria em certo discurso que equipara os desejos femininos, os colocando todos em um só lugar! seus gostos e suas demandas. Equiparar o universo feminino, a meu ver, também tem caráter de violência. Assim, como todas as mulheres que gostam de rosas porque não foram questionadas sobre isso, não seria coincidência todos os mortos também receberem flores em seus velórios, nos seus cerimoniais fúnebres. Enfim, todos os cadáveres também parecem gostar de rosas, de flores, aquele que vem em forma de cuidado e atenção, aquele machismo velado, aquele machismo que nada ouve ou escuta. E, por fim, todos dizem: Como é ROMANTICO O TEU NAMORADO! Como é ROMANTICO O TEU MARIDO!

Enquanto ao homem cabe ser escutado, coube a mulher ser silenciada, esse silenciamento não vem apenas na forma de expressão verbal, mas, também e, talvez, principalmente, pela forma de negligenciar a existência feminina que também tem a ver com o gostar e o não gostar de algo.

Deixo para vocês um vídeo de Antônio Abujamra declamando o poema Mude, mas comece de Edson Marques, para pensarmos nas possibilidades de ver o velho hábito com novos olhares e, com isso, propormos a algumas mudanças. Aproveitem!

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Foto por Rahul Pandit em Pexels.com

Há algum tempo, tenho escutado com maior frequência a palavra empoderar como sinônimo de força, independência e, até mesmo, de existência. Tenho notado ainda certa generalização sobre esse termo, diante desse fenômeno, eu me peguei pensando os motivos desse meu incômodo diante da palavra EMPODERAMENTO. Percebi que o meu incomodo aumenta mais quando a palavra sai da boca de mulheres para se referirem a si mesmas ou a outras mulheres, como mulheres EM- PO- DE-RA-DAS! Claro que esse desconforto não tem a ver com o gênero e, muito menos, com a palavra ou com o verbo em si – empoderar. Porém, tem a ver com certa ideia que fica subentendida em determinadas situações, certa ideia que posso ousar dizer que tem a ver com certo esvaziamento de significado ou de esvaziamento ideológico que a palavra vem sofrendo nos últimos anos.     

São diversas as situações que as pessoas se utilizam da palavra empoderar, mas, muitas vezes, ela quer indicar certa autonomia, o sujeito empoderado geralmente é entendido como aquele que tem poder sobre suas emoções, suas escolhas e, sobretudo, seu destino. Mas, sabemos que a sociedade e a cultura contemporânea são marcadas pela massificação da subjetividade, ideia comum e muito explorada por diversos pensadores da Escola de Frankfurt, na Alemanha, como por exemplo, Adorno e Horkheimer. 

No século XXI, a subjetividade se dilui nas propagandas, o desejo se desvia do destino dos indivíduos, o sentimento de tristeza e infelicidade impera sobre a maior parte das vidas humanas, não é por acaso que a depressão já é conhecida como o mau do século,  mau do nosso século!

Se os afetos são facilmente manipulados, como pensar no empoderamento sem pensarmos sobre o ser político e social que somos? Se definir como um ser empoderado ou uma mulher empoderada exige um trabalho cansativo sobre o pensar sobre si mesmo a partir de uma sociedade que tem fortes instrumentos para manter e produzir cada vez mais riquezas. Assim, eu pergunto. Uma mulher empoderada existe? Um ser empoderado existe? Eu digo, não necessariamente, não!

Se os afetos são facilmente manipulados, então, como pensar no empoderamento sem antes pensarmos sobre o ser político e social que nós somos?

Marcela Santos

Mas, vocês devem estar se perguntando, afinal, o que isso tem a ver com a utilização do verbo empoderar?

Muitos devem estar se perguntando agora sobre as mulheres empoderadas que foram citadas no início da conversa, pois bem, dizer que se é uma mulher empoderada consiste mais em um discurso midiático a serviço do marketing-capitalista-existencial. A ideia latente que traz as seguintes expressões “somos mulheres empoderadas” ou “somos ou devemos ser todas mulheres empoderadas” é certa possibilidade de negação da exceção, ou seja, há um discurso que enaltece ou engrandece a existência a partir do poder e aquele sujeito que não contém o empoderado pode ser percebido como aquele que destoa do novo paradigma da existência feminina, mas, como podemos associar existência a poder?

O fato mais importante que eu penso é entender que existir não deve ser confundido com poder, muito menos, com luta de poderes. Não luto para existir, eu simplesmente existo! Existir é apenas existir, não requer força, porém, não nego com isso as lutas das mulheres ao longo dos séculos para acessar as diversas áreas da sociedade, as quais somos favorecidas atualmente, mas, insisto que não devemos adotar discursos ou terminologias impostas por sistemas econômicos dominantes a favor e a trabalho de um marketing existencial que serve muito mais ao lucro do que para a auto-reflexão e a liberdade de existir.

Eu me nego a impor a minha existência a você, eu simplesmente existo, não me vou empoderar porque ninguém tirou meu poder e, por isso, ninguém me autorizará a colocar meu poder de volta. Existir é ser e ser é só ser…

Pois bem, se a subjetividade flutua entre uma propaganda e outra pelas mídias digitais e televisivas cujos afetos são moldados e manipulados, se a massificação e a tristeza são traços que estão presentes no sujeito contemporâneo, se o sujeito perde ao longo da sua vida a possibilidade de ter contato consigo mesmo, logo, podemos dizer que nós, indivíduos do século XXI, perdemos a cada dia a possibilidade de ser um ser-existente, portanto, de se tornar um sujeito empoderado, podemos encontrar facilmente diversos  exemplos que denunciam a impossibilidade do empoderamento subjetivo, mas, isso não significa que seja algo inalcançável, porém, não é algo tão comum e tão fácil de ser conquistado como sugere certa tendência midiática, eu entendo que a utilização do verbo empoderar está mais em sintonia com a massificação do que com o processo verdadeiro de reflexão e libertação dos valores capitais pelos indivíduos, além disso, também está a trabalho do marketing e das propagandas que são engrenagem fundamentais para o sistema econômico capitalista continue a operar, assim sendo, eu  posso entender que empoderamento não existe porque somos facilmente manipulados, quem aqui nunca ficou comovido ou comovida com notícias de redes sociais?

Deixo aqui de presente para vocês a música de Arnaldo Antunes interpretada por Marina Lima que leva como título Grávida nos remetendo a gestação de ideias, pessoas, sentimentos e das infinitas possibilidades de existir!

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